Eu nunca fui a melhor. Nunca fui a preferida. Nunca fui especial. Desde pequena me acostumei com o meu passar despercebida. Dentre meus primos, nunca fui a favorita de meus avós. Nunca fui a melhor em um jogo, no desenho, no cantar. Nunca fui especial para alguém. Nunca fui lembrada.
Por mais que depois desses quase 15 anos de vida eu saiba fingir muito bem sentimentos que eu não sinto não posso fingir para mim mesma, tornando-me mais uma na arte de me enganar, afinal, nem nisso sou a melhor. O fato de nunca ter sido importante, nunca ter sido a personagem principal da minha história, me afeta. Por mais que meus lábio digam que não, sim, me afeta.
Lembro-me da minha avó materna por exemplo, a Dona Julieta, sempre teve o meu primo mais velho e as filhas da minha tia do meio (também sua filha favorita) como preferidos. Ela, até hoje, faz questão de me dizer que eles são inteligentes, trabalhadores, pessoas de bom caráter, gente de família. Mas o pior de tudo: tu devias ser como eles. Não, vó, eu não sou como eles.
Um dia desses meu pai me perguntou porque logo eu, filha única, menina, fui nascer tão revoltada com as coisas ao meu redor? Eu tinha tudo para ser mais uma garota certinha e acomodada, e também, normalmente os irmãos mais novos são os revoltados, já que querem quebrar o padrão criado pelos irmãos mais velhos. Na hora eu não soube responder, mas agora posso até pensar numa resposta, pai: eu sou revoltada porque nunca fui percebida. Talvez toda essa rebeldia que existe seja só uma máscara do meu vazio.
Nesses momentos sinto saudade do meu avô paterno, o seu Salvador, acho que ele foi a única pessoa pra quem eu signifiquei algo. Minha avó, Dona Ivone, conta que meu avô era mais sério, rígido, teve dois meninos infernais pra criar (meu tio e meu pai), claro que isso o ajudou a se tornar mais assim, mas que quando a notícia do meu nascimento chegou uma nova luz nasceu no meu vô, como ela diz: a doçura de uma menina. Eu realmente sinto falta do meu avô, e Outubro é o mês do seus dois aniversários, o de nascimento (8 de Outubro) e o de morte (algum dia próximo do 20 cujo qual fiz questão de esquecer). Sempre acabo ficando mais estranha nesse mês.
Muito por ter me acostumado a ser coadjuvante da história, observo as pessoas ao meu redor, e acabo percebendo o quanto elas são melhores que eu. As invejo? Sim, mas não quero seu mal, nem tento me obrigar a ser como elas. Eu só queria era ser melhor que elas, entretanto, defeituosa nasci e vazio imperceptível me tornei.
